
Perguntas mais frequentes
sobre o restauro fluvial na bacia do alviela promovido pelo programa rios livres geota
INFORMAÇÃO ÚTIL
O que é a conectividade fluvial?
A conectividade fluvial é a capacidade de circulação de diferentes elementos (como substâncias químicas, partículas e seres vivos) entre troços de rio e o ambiente circundante.
Falamos na conectividade entre as zonas a montante e a jusante (conectividade longitudinal), entre o leito e as áreas adjacentes (conectividade lateral), ou entre o leito do rio e o subsolo (conectividade vertical).
Qual a importância da conectividade fluvial?
A conectividade fluvial é fundamental para a manutenção de ecossistemas ribeirinhos saudáveis, permitindo, por exemplo, a movimentação de nutrientes e sedimentos ao longo do rio, a dispersão de peixes e outros organismos, e a melhoria da qualidade da água.
O que são barreiras à conectividade fluvial?
Na maioria dos rios, grande parte da água que costumava fluir naturalmente é hoje em dia bloqueada por barreiras à conectividade fluvial. Barreiras à conectividade fluvial são qualquer estrutura que impeça a conectividade do rio, e podem ser desde grandes barragens a pequenos açudes, alguns dos quais obsoletos e sem qualquer tipo de função atual.
As barreiras à conectividade fluvial têm impactos negativos?
As barreiras à conectividade fluvial trazem vários impactos negativos, incluindo os seguintes:
- Causam um decréscimo da qualidade da água e potenciam blooms de cianobactérias.
- A montante da barreira acumulam-se sedimentos, reduzindo a disponibilidade de água no local, potenciando a redução da areia nas praias, e consequentemente o grande custo económico de repor essas areias artificialmente.
- Impedem a passagem de peixes, promovendo o declínio dos peixes migradores.
- Estimulam uma maior utilização da água, podendo levar a uma maior vulnerabilidade a situações de escassez de água.
Existem diretrizes da União europeia em relação à remoção de barreiras?
A remoção de barreiras fluviais obsoletas é uma ação urgente e alinhada com as diretrizes europeias para a preservação da biodiversidade e a resiliência climática.
A União Europeia estabeleceu metas ambiciosas para a reabilitação dos ecossistemas aquáticos, tornando este o momento ideal para agir.
Por exemplo, a Estratégia Europeia para a Biodiversidade 2030 define o objetivo de restaurar pelo menos 25.000 km de rios em toda a Europa até 2030, garantindo o restauro dos ecossistemas degradados.
Adicionalmente, a Lei do Restauro da Natureza, aprovada recentemente, impõe metas obrigatórias para a recuperação dos habitats degradados, incluindo rios fragmentados por infraestruturas artificiais.
Para além destes instrumentos, é de ressaltar a existência do Dam Removal Europe, um movimento europeu que promove a remoção de barreiras obsoletas para recuperar a conectividade fluvial, beneficiando tanto os ecossistemas como as comunidades locais.
Cada país da União Europeia tem o comprometimento de contribuir para atingir estas metas.
Importa então definir como será feita a remoção de barreiras, sendo importante neste contexto garantindo que as populações ribeirinhas sejam ouvidas.
No Alviela, o Programa Rios Livres GEOTA trabalha para assegurar que estas remoções são feitas de forma justa, transparente e adaptada às necessidades das comunidades locais.
Através do nosso trabalho, garantimos que:
As remoções são planeadas de forma responsável, minimizando impactos negativos e maximizando benefícios ecológicos e sociais;
As populações ribeirinhas são envolvidas no processo e podem influenciar as decisões;
A reabilitação dos rios seja uma oportunidade para o desenvolvimento local, através da valorização da identidade cultural, das atividades económicas sustentáveis e da melhoria da qualidade da água.
A remoção de barreiras não é apenas uma questão ambiental, mas também um passo essencial para a ação climática e para a criação de rios mais saudáveis e resilientes. Agora é o momento certo para agir, garantindo que esta transição seja feita com justiça e com um impacto positivo e duradouro.
remoção de barreiras
O que são barreiras obsoletas?
As barreiras obsoletas são estruturas artificiais que interrompem a conectividade fluvial, mas que já não possuem utilidade, valor económico ou função social significativa.
No Alviela, muitos açudes foram construídos no passado para aproveitar a força da água em indústrias como lagares de azeite, moinhos de farinha ou curtumes.
No entanto, com a evolução dos processos industriais e a mudança das atividades económicas, muitas dessas estruturas perderam a sua função original. Algumas assumiram novas funções, sendo por exemplo alvo de outra utilização económica, ou tornando-se locais de recreio e lazer. Mas outras não têm qualquer propósito atual, e na sua generalidade podem ter impactos ecológicos negativos.
Neste caso, a remoção destas barreiras permite a recuperação da dinâmica natural do rio, dos movimentos das espécies (nomeadamente dos peixes migradores) e a melhoria da qualidade da água, representando uma oportunidade de recuperação ecológica.
Quais são os objetivos da remoção de barreiras obsoletas?
A remoção de barreiras obsoletas garante benefícios significativos para o ecossistema fluvial, tendo como principais objetivos:
- Através da recuperação da conectividade fluvial, restabelecer a livre circulação de espécies, nutrientes e sedimentos ao longo do rio, por exemplo facilitando o movimento de peixes migratórios, o transporte de sedimentos, e a regeneração de habitats naturais.
- Através da recuperação de serviços ecossistémicos essenciais, aumentar a resiliência dos ecossistemas perante as alterações climáticas. Alguns exemplos incluem:
- Aumento da qualidade da água: ecossistemas fluviais saudáveis ajudam a filtrar contaminantes e a melhorar a qualidade da água;
- Transporte de nutrientes e sedimentos: o transporte natural de nutrientes e sedimentos ajuda a manter a fertilidade do solo, a areia nas praias e o equilíbrio ecológico;
- Proteção contra secas e cheias: rios com boa conectividade fluvial têm maior capacidade de regular o fluxo de água, diminuindo o risco de inundações e prolongando o abastecimento de água durante períodos de seca;
- Recreio e lazer: com a reabilitação das paisagens fluviais, as comunidades podem aproveitar os rios para atividades recreativas, como caminhadas, passeios de barco e pesca.
que benefícios traz À população A remoção de açudes obsoletos?
Promovendo um futuro mais sustentável e resiliente, tanto para os rios quanto para as pessoas que deles dependem, a remoção de barreiras obsoletas pode representar uma oportunidade estratégica para as comunidades ribeirinhas, Alguns exemplos dos benefícios que a remoção de barreiras obsoletas pode trazer às comunidades ribeirinhas são:
Valorização da paisagem e biodiversidade: A remoção de barreiras não só melhora a saúde do ecossistema, mas também promove paisagens mais naturais, valorizando o ambiente em que as comunidades vivem e oferecendo novas oportunidades de turismo e lazer.
Fortalecimento da identidade local: Ao recuperar o ecossistema fluvial, as comunidades podem reconectar-se com o seu rio, preservando a memória cultural e as tradições locais relacionadas ao uso sustentável dos recursos hídricos.
Desenvolvimento económico local: A melhoria da qualidade do ambiente pode estimular atividades económicas sustentáveis, como o turismo ecológico e a agricultura regenerativa, que beneficiam diretamente as populações ribeirinhas.
Havendo escassez de água, não se deveriam construir mais açudes para armazenar água, em vez de os remover?
Ao contrário do que possamos imaginar, a existência de barragens e açudes não é necessariamente positiva em situações de seca e escassez de água.
De facto, estas estruturas tendem a criar uma falsa sensação de segurança face à água armazenada naquele local, levando a uma maior utilização da água e, consequentemente, a uma maior vulnerabilidade face a situações de escassez de água.
Neste contexto, a tendência de se construir barragens e açudes como medida de adaptação à escassez de água decorrente das alterações climáticas, não só pode ser errada (o problema da escassez de água mantém-se), como potencialmente ter o efeito contrário (o problema da escassez de água agrava-se). Contrariamente, a remoção de barreiras pode ser considerada uma Solução baseada na Natureza para combater a escassez de água.
A escassez de água atual é muito mais influenciada por variáveis climáticas, como alterações no padrão de precipitação e aumento da temperatura, que afetam os rios e os aquíferos.
É importante destacar que o Rio Alviela tem origem numa das mais importantes nascentes cársicas do país e está associado a um dos maiores aquíferos da Península Ibérica. Isso significa que, apesar de algumas variações sazonais, o Alviela não está sujeito a flutuações drásticas como aqueles rios que dependem exclusivamente da escorrência de águas da chuva.
A remoção de barreiras neste contexto é um passo positivo para melhorar a saúde do rio e garantir a sustentabilidade da água a longo prazo.
Portanto, a remoção de barreiras obsoletas NÃO deve ser vista como uma ameaça à disponibilidade de água, mas como um investimento na recuperação dos ecossistemas fluviais, essencial para garantir recursos hídricos mais seguros e resilientes no futuro.
Quais as vantagens de remover açudes que já estão partidos?
As barreiras, mesmo quando partidas, continuam a impedir a passagem natural dos sedimentos, causando a sua acumulação a montante e afetando a dinâmica do rio. Além disso, alteram o fluxo da água, podendo provocar erosão a jusante e modificar os ecossistemas ribeirinhos.
A remoção destas estruturas deve ser feita independentemente de os peixes conseguirem passar, pois a sua presença interfere no restauro dos processos naturais do rio, criando entropia no ecossistema.
Se uma barreira for removida, vou ficar sem água no meu poço?
A resposta depende de diversas variáveis. A principal delas é o tipo de poço, a sua profundidade, a cota (a altura do poço em relação ao nível do mar) e a composição do estrato rochoso onde o poço está situado.
Em termos gerais:
No curto prazo, após a remoção de uma barreira, é possível que o nível da água do poço baixe temporariamente. Isso acontece porque o nível médio da água do rio pode baixar devido à remoção da barreira.
A longo prazo, o sistema fluvial tende a recuperar o seu equilíbrio natural, o que geralmente normaliza o nível freático e pode devolver o nível da água do poço à sua condição original, ou até melhorar.
questões legais e outras
Quem decide se determinada barreira pode ser removida?
Legalmente, a remoção de barreiras obsoletas é regulada pelos seguintes diplomas:
Lei n.º 54/2005, de 15 de novembro – define a titularidade dos recursos hídricos, abrangendo as águas, leitos e margens, bem como zonas adjacentes e protegidas.
Decreto-Lei n.º 226-A/2007, de 31 de maio – estabelece o Regime da Utilização dos Recursos Hídricos.
Portaria n.º 1450/2007, de 12 de novembro – fixa as regras específicas do regime de utilização dos recursos hídricos.
Na prática, o licenciamento da remoção de um açude exige a identificação dos proprietários das margens contíguas e a verificação da existência de um documento de licenciamento da sua construção.
Caso não exista licença ou esta não seja identificável, a estrutura é considerada ilegal e pode ser removida com autorização da Agência Portuguesa do Ambiente (APA).
No programa Rios Livres GEOTA, defendemos que o envolvimento da população é essencial. Assim, além do cumprimento das normas legais, promovemos reuniões e encontros com proprietários e comunidades locais para informar sobre o projeto e integrar sugestões e preocupações.
Após essa fase de participação, o processo de licenciamento é instruído junto das autoridades competentes, incluindo a autorização formal dos proprietários, quando aplicável.
Há algum tipo de compensação aos proprietários dos terrenos, pela remoção de barreiras?
Os financiamentos que apoiam as ações do programa Rios Livres GEOTA têm objetivos e metas bem definidas no âmbito do restauro da conectividade fluvial de ecossistemas ribeirinhos, e cujos resultados temos que reportar para a validação do projeto e libertação das verbas.
Não existe nenhum objetivo, atividade ou meta que preveja o pagamento monetário direto aos proprietários.
Em alguns casos, poderão ser equacionadas medidas compensatórias de eventuais impactos da própria intervenção.
De quem é a responsabilidade de garantir a manutenção das intervenções realizadas?
Aguarda parecer legal
O que pode ser feito para garantir que as memórias associadas à zona do rio que vai ser intervencionada sejam preservadas?
Para garantir que as memórias associadas à zona do rio intervencionada sejam preservadas, procuramos sempre assinalar o local com um painel informativo, onde, sempre que possível, apresentamos a história da região, destacamos a sua riqueza natural e explicamos os objetivos da reabilitação. Além disso, identificamos os proprietários das margens e outros elementos relevantes para contextualizar a intervenção.
Paralelamente, dedicamo-nos à investigação e recolha de depoimentos em vídeo dos habitantes, registando as suas vivências no rio Alviela. Este trabalho permite documentar histórias, usos e costumes, assegurando que esse património imaterial seja preservado para memória futura.
programa Rios livres geota e o Alviela
O que é o GEOTA?
O GEOTA (Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente) é uma Organização Não Governamental de Ambiente (ONGA) de âmbito nacional, com estatuto de Utilidade Pública. Embora tenha sido formalmente constituído em 1986, a sua atividade enquanto grupo de reflexão e educação ambiental remonta a 1981.
O que é o Programa Rios Livres?
Em 2014, o GEOTA criou o programa Rios Livres GEOTA com o objetivo de promover, proteger e reabilitar os ecossistemas ribeirinhos. Através deste programa, o GEOTA trabalha em parceria com a sociedade civil e com organizações, a nível nacional e internacional, para melhorar o estado ecológico dos rios.
Como é Financiado o Programa Rios Livres GEOTA?
Atualmente, o programa Rios Livres GEOTA é financiado pelas seguintes entidades:
- Donors Initiative for Mediterranean Freshwater Ecosystems
- Fundação Calouste Gulbenkian
- Stichting European Open Rivers Programme
- Prémio Dam Removal Europe 2023
Qual a atuação do Programa Rios Livres GEOTA no Rio Alviela?
Atualmente, o trabalho do programa Rios Livres GEOTA tem um grande foco na bacia hidrográfica do Rio Alviela. Aqui, as principais áreas de atuação incluem:
- Mapear barreiras fluviais e identificar aquelas que são obsoletas;
- Reabilitar troços do rio Alviela, com foco principal na melhoria da conectividade fluvial;
- Promover o restauro fluvial como forma de ação climática;
- Envolver as comunidades locais num processo participativo sobre o futuro do rio, incentivando o usufruto dos seus benefícios ecológicos e sociais;
- Preservar e divulgar a memória coletiva para as gerações futuras, registando vivências, usos e costumes associados ao Alviela.
Com estas ações, o Rios Livres GEOTA pretende contribuir para a recuperação dos ecossistemas fluviais e garantir um futuro mais sustentável para os rios de Portugal.
Que benefícios pode trazer o programa Rios Livres GEOTA ao rio Alviela e às suas populações?
A atuação do programa Rios Livres GEOTA traz impactos positivos tanto para o rio Alviela quanto para as comunidades que dele dependem. As principais vantagens incluem:
Reforço da identidade local e do vínculo com o rio
- Promovemos a manutenção da identidade das populações em relação ao seu território natural, valorizando o rio Alviela, as suas gentes e a sua história.
- Incentivamos a proximidade das comunidades ao rio, promovendo o seu envolvimento ativo na preservação dos valores naturais e culturais.
Resiliência às alterações climáticas
- Contribuímos para a atenuação dos efeitos das alterações climáticas, sensibilizando a população para a importância dos rios saudáveis na regulação ambiental.
- Promovemos o restauro fluvial como uma ferramenta essencial para a adaptação climática e a mitigação de riscos como secas e cheias.
Criação de redes colaborativas
- Apostamos na cooperação entre municípios, ONGA, instituições académicas, media, escolas e artistas, promovendo uma visão partilhada sobre a importância dos rios e das suas funções ecológicas.
Decisões mais participativas e informadas
- Estimulamos a participação pública nos processos de decisão sobre o restauro fluvial, garantindo que as autoridades e gestores públicos considerem a perspetiva das comunidades.
Educação e envolvimento intergeracional
- Aumentamos o grau de conhecimento, consciência e motivação da população para a conservação dos rios.
- Envolvemos especialmente os mais idosos, incentivando a transmissão de memórias, vivências e saberes tradicionais ligados ao rio Alviela, integrando-os como parte essencial da estratégia de conservação.
O Programa Rios Livres GEOTA trabalha para garantir que o rio Alviela continue a ser uma fonte de vida, cultura e identidade para as gerações presentes e futuras.
Vai ser removido mais algum açude no Alviela?
O programa Rios Livres GEOTA coordena o desenvolvimento de uma metodologia de identificação, caracterização e priorização de barreiras, a qual está a ser aplicada ao Alviela.
Daqui resulta a lista de barreiras existentes, das quais se podem identificar as obsoletas, ou seja, sem qualquer uso económico, social ou ecológico. Essas barreiras obsoletas estão a ser hierarquizadas de acordo com o maior benefício ecológico considerando a sua remoção.
Este trabalho permite não só identificar as barreiras obsoletas como também perceber quais as remoções que garantem maiores benefícios ecológicos para todo o ecossistema ribeirinho.
Neste sentido, e ainda no âmbito deste projeto está projetada a remoção de 1 ou 2 barreiras obsoletas identificadas no estudo.
posição do geota face à poluição do rio alviela
O GEOTA apoia a luta que as populações ribeirinhas do Alviela travam desde o século passado contra episódios de poluição. Apesar de reconhecer melhorias significativas a este nível face à gravidade dos episódios do passado, o GEOTA ressalta a atual incompatibilidade entre o investimento em atividades de restauro e os episódios de poluição que continuam a ocorrer no rio Alviela.
A continuação da existência de focos de poluição no Alviela, com consequências ao nível ecológico, social e económico, além de frustrante para as populações ribeirinhas, acaba por tornar socioeconomicamente desajustado o trabalho que tem sido feito de promover o restauro fluvial e o reencontro das comunidades com o rio.
Perante o atual cenário de emergência climática e a existência de soluções de gestão compatíveis com a sustentabilidade ecológica dos ecossistemas fluviais, o GEOTA considera urgente e necessário definir-se uma estratégia para o restauro do Rio Alviela, que continua ameaçado pela poluição.
Para o GEOTA somente dialogando e com a participação de todos se conseguirá resolver o problema da poluição do Alviela!